sábado, 7 de agosto de 1993

aurora de inverno




No bosque,
incertezas, frias flores
e minha calma mais gélida

: rancores.

(Cai a noite, e finda,
cá eu, à espera do flerte
com a mais linda.)

Fim do vinho
: troco os cacos
por um
carinho
.


quinta-feira, 20 de maio de 1993

pai




o velho poeta
nunca soube escrever
nem foi preciso

e há poesia por viver

(abre o sorriso)


quarta-feira, 28 de abril de 1993

cínica




anda tão triste
minha tristeza

tão
melancolia

que até sorri
vez em quando
só pra dizer
que é vazia


domingo, 21 de fevereiro de 1993

maré




ter a lua
por testemunha
não é tê-la

?

tênue linha
entre a palavra

nua

e saber
vivê-la


terça-feira, 8 de dezembro de 1992

alameda cabral




feito sanhaço
canto a manhã
ao longe

de ontem não passo
as lembranças vêm vãs...

é hoje


domingo, 15 de novembro de 1992

o porão




Nos becos, os ecos de crianças & cães,
& almas em fogo, ascendendo em cigarros.
Aos tanques, às lamúrias, as mães,
reclamando da vida, dos casebres, do barro.

Os pais, calejados, se afogam no bar,
rindo do passado, chorando o futuro.
Aos bolsos, o vazio a torturar:
- Mais um gole do amargo puro!

Se pudessem, beberiam aos jarros,
apagando, da vida, a última centelha
de sonhos cadentes, implorando um amparo.

O amanhã, nesta fagulha se espelha,
com a bala na agulha, pagando caro,
estirado ao solo, camisa vermelha.