sábado, 2 de março de 1996

poemerege número 667




se deus existe
ele é tudo
e está além de tudo

deus
sou & somos
eu & você

a árvore derrubada
o sopro na flauta
o veneno de uma piada

a tua falta

é o castelo do nobre
o chinelo virado
o cachorro doente
o espelho quebrado

o elo
entre o feio
& o belo

um deus que é deus
não precisa de bíblias
escritas pelo homem
inda menos de igreja
exaltando a dor & a fome
 
nem de oferendas
guerras & sacrifícios
terras & edifícios


e ele está aqui
veja!

nesse verso
no outro
e no seguinte

ele é onipresente
não por estar em tudo
e em todos os lugares
e sim por ser tudo
e todos
em todos os lugares

ele pode ter tido
muitos emissários
como sidartha, joshua
ou mohamed
mas podemos encontrá-lo
em da vinci, bessie smith
até em nitzschie

e como não vê-lo em brigitte bardot?

se ele não é isso
e todo o mais
ele não é deus

pois ele é
tudo

e está na vida
na ferida
nos ateus

no absurdo


quinta-feira, 16 de novembro de 1995

pequeninos




Meu ouvido esquerdo,
quase grita,
à dura impiedade,

o lamento que diga.

Que estágio é este que nos tem
onde se ama quem puder
e se salva quem não quer?

Puro contratempo.

(E quem liga
se há verdade?)

No âmago do momento,
às profundezas da convicção:
sequer eu, pensante, existo,
perante a busca
da razão
.


terça-feira, 14 de novembro de 1995

lost soul, saul's bar




Que jazz aqui,bailarina?

Veio ao solo
dos metais?

Viagem vã
: esta jam
é dos mortais.

Todavia,
se me deixar em paz,
se esquecer o tal romance,
então pedirei que fique.

Pois com a vida,
ao meu alcance,
não mais me encanto.

Agora dance
que o uísque é dose...

(gole)

...e nem tanto.


quinta-feira, 19 de outubro de 1995

velha cena de bar




Não há noite
que contenha
o roer de unhas,
o tremor das pernas,

a dose de pinga.

E ela não vem,
só a outra.
- Querida!

E me xinga.

(Devolva minha vida,
guria!

Senão,
te dou um punhado
de alegria.)


sexta-feira, 29 de setembro de 1995

ana




escreveste
com letras de fôrma
quase sem forma

ilegível

um poema 
de versos roubados
de um poema antigo

impressiona
pois apesar de cafona
,

imprescindível



terça-feira, 26 de setembro de 1995

pantomínima




argumento,
motivo do conflito
:antes não reflito,
me divido

sou perda
sou passado
sou bogart
no mesmo noir
irrevogável reverso

nem há como caminhar
pois sou pedra
jurada de vida
pelo universo


sábado, 23 de setembro de 1995

vitrinity




me dá outro chope que trânsito aquela gata você viu a vizinha me perdoa sua besta jesus está olhando me empresta dez mangos ei que cê tá fazendo chama polícia uma dose uma só mais uma liquidação entrem entre e morra

(pensando à grega
vestidos como americanos
,
o menino se matando
a menina se vendendo
&
o douto se drogando
o diabo se benzendo
:
seria a vida mesmo insana
ou nossa inércia
atingiu algum nirvana?)


quarta-feira, 20 de setembro de 1995

tema para outro poema




o momento anterior
ao virar da página
é tão profundo
quanto o próximo

: procure o sólido
no abstrato máximo
pedra
de peso flácido

(ao apagar do ápice
outro momento daqueles
nos rasos olhos de lápis)

diga o quiser ao mundo
mas antes anteceda o instante
entre a máquina a mirar
e a miragem
na estante