sexta-feira, 9 de novembro de 2001

o funeral de um poema inacabado




todos

(jovens decrépitos
em sua hábil
plagiarte)

nós

(rompendo com o absurdo
lambendo os beiços
na porta dos fundos)

atados
(e alguém havia soprado
que o pesadelo pode ser
bem mais brando que o sonhado)


sexta-feira, 10 de agosto de 2001

cinema surdo




numa cavidade
da madrugada ranzinza
aura cinza

estanco a cidade do peito
sorrindo
- pois tenho direito

e fico em casa

na fogueira
sereno
& brasa
fazem amor de verdade
unindo prazeres
& vontades

e é nesse filme
que godard não fez
que a lucidez me volta
mostrando que
do que a saudade me fez
nada
& nada mais
importam

(um dia volto a te sonhar
só quero que entenda
que o tempo só é tempo
por ser apenas
um outro encontro

não mais que momento
num reles lugar)


 

quinta-feira, 9 de agosto de 2001

philosophycow (ou "a via láctea")

 


na época das vacas magras
uma delas ia para o brejo
mas errou de direita
e entrou num brechó

gostou da vitrine
olhou nos olhos do dono
um tal de Sérgio, um tanto espantado
e disse:

- Ô, meu? que cara é essa?
Nem tô de biquine...

o Sérgio se recompôs
e perguntou:
- No que posso lhe ajudar?

- Em nada!
e, erguendo o queixo
foi embora, a Vaca
sem nada, nem tocar

então, o tempo
ele mesmo, o tempo
veio e questionou
se ela seguiria seu destino
se devemos todos
continuar

e ela respondeu
de patas na cintura:

- Menino,
numa vida que seja, mesmo,
pura,
a estrada não é mais que uma jura
de que vamos
nos encontrar.



quinta-feira, 5 de julho de 2001

nada foi como em madrid




nada foi como em madrid
mãos dadas
às noites mais sonhadas
que vivi

nada foi como em madrid
chegar te ver tecendo
nuestro amor
por nos vestir

nada foi como em madrid
o vento o céu o beijo
teu cílio caído
no meu nariz

nada foi, nem será
como em madrid
pois lá não fui
nem quero
ir


terça-feira, 3 de julho de 2001

musa de uma tarde à tarde




bar da vila
mesa de amigos
rum & charuto

poema no guardanapo
batom no copo
fogo no corpo
e a noite desce
doce doce
,
instinto bruto:

mas nem que eu fosse dois
deixava o desejo
pra depois!


(acordar é o preço
de entender que a perfeição
é só o começo)


segunda-feira, 2 de julho de 2001

do tejo ao tietê




Este poema
estava engasgado
na recordação.

Quem sabe, febril,
na mais piégas
& sutil emoção
de saber o quanto arde
ser da dúvida
a convicção.

Lá fora,
o sol é frio,
o vento é seco.
A quietude,

parece um fado.

Eis belo dia
de relembrar
quando chovia

: quando o para sempre
para sempre
foi condenado.

(Ela sabia.)