sábado, 28 de junho de 2003

Jhonny's Pub




podia ser
a mais fria & chuvosa
das segundas-feiras

ainda assim
sempre estavam lá
: os jovens do pré-vestiba

amontoados
nas velhas mesas
atordoados pela incerteza
poesia ou prosa?
pagando as béras
com seus vetês;

às paredes azuis, vivas
as garotas fumando
desenterrando amores
& versos de MPB

(tipo, "leãozinho"
que mais parecia
uma ode ao mé barato);

alguns cegos
que, em terra de reis
juravam ter visto
o mesmo rato
cor-de-rosa;

a Cléo Punk
que nos arrastava
para a sinuca no Bigode
(outro bareco perto dali)
é, esnuque, piá
e esnuque é pra quem pode
e eu, para ela, todas, perdi;

alguém sempre
mesmo, sempre,
falando da lua;

os estudantes
da escola técnica
exibindo suas
técnicas etílicas antes das seis
enquanto, meu camarada, o Jean
debatia com o Fábio Gadelha
astrologia, contradições
& passagens bíblicas

(o bar ficava ao lado
de um convento
toda hora ali passava, e de nós, desviava,
alguma freira);
a aranha marrom
no banheiro
onde ainda era normal se deparar
com alguma menina
de dedo na garganta
pondo para fora o vinho doce
na, sério mesmo, banheira;

gritalhões no corredor
apostando alianças
no jogo de palito
(que parecia de foices)
observados por alguns senhores
em seus velhos ritos
& sorrisos;

atrás do balcão, o João
alguns o chamavam de Gervão
(que era uma pinga que ele vendia);

então, certa semana
troquei a segunda pela quarta
e eu a vi

aquela guria

que lia Borges
ruivinha
claros olhos
longo vestido escuro
quietinha, na mesa sozinha
eu a vi

larguei as ilustrações que fazia
e levantei para falar com ela
eu ia a pedir em namoro
eu juro

no caminho,
alguém me chamou
olhei para o outro lado
era o Sid,
o sujeito que deixou o mar
a ver navios

ele me congratulou
pelos meus dezoito
completos um dia antes
e, sem jeito com essas coisas
mal eu soube agradecer

quando voltei para o caminho
que, caramba, era de uns dois ou três passos
a guria havia sumido
e ninguém havia a visto
desaparecer

pois não tinha ninguém ali
disse o Seu Branco, ou alguém
que minha memória
não quer mais
reconhecer
e eu nunca mais a vi

os dias seguintes foram frios
com noites de frieza
com perdas, tristeza
como a que levou o chapa Chaiu
ou da do Fabien, que se matou
(muitos entenderam "Fábio",
e achavam que era o Gadelha)

um clima estranho se instalou
até uma noite que o Mais Além
mandou tudo pro além
tocando Beatles
na calçada

foi quando conheci
uma namorada
que mordia minha orelha

mas a leitora de Borges,
mesmo depois do próprio Joãozinho ter morrido
do prédio onde ficava o boteco
ser demolido
do vetê ser extinto
da maioria ter parado com o vinho tinto doce
do Alexandre, o Côco
ter aberto um bar lá perto da Reitoria
e de revivermos tudo
um pouco,

ainda é um filme
centrado naquela pose
de pernas cruzadas
sandálias soltas
páginas viradas
olhar de canto
...

como ela
não se encontra

e se era um fantasma

é um fantasma
e tanto



quarta-feira, 23 de abril de 2003

23




Ho cercato di dimostrare
che sarebbe stato possibile
seguire

ma poi mi è stato
trasformato in pietra
cementati nel terreno su cui camminiamo
ieri

non c'è modo di seguire
senza sapere dove
noi non

Non.



sexta-feira, 4 de abril de 2003

domingo, 9 de fevereiro de 2003

welladay

 


na passagem
para a passagem
noitadentro

ab

sinto

e se alguém souber de cronos
que o mande para cá
provar de minh'espada
manchada do sangueterno
das horas & honras passadas

sem volta
noitadentro

ab

sorvo

cada megamicroinstante

se deliro
bem que faço
renasço

corvo

torto

estorvo

cantarolando musiquetas
das que muitos quase morrem
só de lembrar

e só me dou conta
de quanto dela passei
quando o Simão
dono do bar
diz não ter troco
pra nota
de cem
que acabou de abrir
e que vou ter
de esperar




quarta-feira, 15 de janeiro de 2003

reunião de negócios




tomei uma atitude
e dei aquele soco
na mesa

o coração pediu a conta
a incerteza pediu aumento
o perdão ficou louco
a ironia ficou bem tonta
e o sarcasmo
um tanto rude

ser bom, até que tento
já, ser eu mesmo

fui

enquanto pude



quarta-feira, 1 de janeiro de 2003

dois mil & três

 


: revemos fogos
& o tudo de bom
(à vontade berrando fuja!)

champanha salton
: brut
sessão coruja
: gaiola das loucas, putz...

(então fui lavar a louça)

& o ano que vem
vem
meio nathan lane
meio penny lane
(na versão do bowie, ouça)

e ela dorme
o verso some
mas eu preciso mesmo terminar
este poema

: calço os chinelos
tento passos singelos...

- Como odeio estas algemas!



sexta-feira, 20 de dezembro de 2002

janelaberta

 


parafernalímbicomecei
terminandoitchauscultando
imprópriopeitópiousolomomento

emchamaschameiteameinãoteachei
licartaemquedalivrecêaindadivagando
queroutraseisvidasoulratoseusuculento

queijosumiçobeijosóissoteumiau

e c h o a n d o o o o o o o

(era só o vento)



terça-feira, 17 de dezembro de 2002

no zero outra vez

 


sou o que fui
e o que nunca
quis ser

o destino
agora é um grande vacilo
que destilo
buscando vencer

mas como me disseram
a culpa
é de quem pensa

afinal
por que questionar
sonhar
lutar
 

parece
que o bom mesmo
é seguir na linha
não olhar para os lados
muito menos
para trás

e como eu digo
parece mesmo
um castigo
ainda sentir
ser capaz