sábado, 21 de fevereiro de 1998

1984




corre na chuva
foge da noite
escorrega na lama
até de rua se engana

tarde que chega
tanto que chora
quase que urra

uma triste senhora
o castiga 
com surra

mas logo o abraça
com o susto
trovão
!

essa dor
sempre passa
dor de mãe

solidão



sexta-feira, 20 de fevereiro de 1998

Spiegel




a aquariana estação
repentina
também, de repente
já se foi
&
já senti o que devia
já sofri o que sentia
já perdi o que foi pago

até encontrei o velho mago
mas não qualquer resposta
que ecoasse aqui 
dentro

pelo contrário
vi a escuridão em seus olhos
e se vi, vi sim, portal de espírito ordinário
em mútuo arrependimento

- Passado.

(boas-vindas
ao rei dos sete mares
e ao tempo de sonhar
que já invade
nossos lares)



sexta-feira, 13 de fevereiro de 1998

coisas que penso enquanto escovo os dentes




(ó, noite cheia
de lua vazia,
estou com a dúvida,
ou a dúvida comigo está?)

queixumes,
deixem-me quieto
já é sórdida a antemanhã
ela que se vá

pois
latejante
a incerteza me esmurra
se não há na memória
pronta desculpa
ou sinal de razão

só me resta
o coração, foz
onde deságua mágoa
onde perco a voz
onde tudo é 

lodo

(e a torneira
ficou aberta
o tempo todo)


despedida




f r a g m e n t o s

caem ao tempo
como as pholhas

,
        ,
                ,

mil momentos
uma escolha


domingo, 18 de janeiro de 1998

p&b




Devidamente como proposto,
o fraco ancião viu, no desgosto,
o retrato de sua vida

: certo dia, quase sem forças,
reencontrou aquela moça,
que lhe foi a mais querida.

Ela não envelheceu,
pois tinha a senha para amar
e, não, não a vendeu.

O velho saiu do sério
: mesmo antes de morrer
já estava no cemitério.

E, tendo a raiva como lema,
nem pôde perceber
que assassinou
este "poema"
.


sábado, 17 de janeiro de 1998

casa antiga




Espectral,
o vulto matinal,
sorridente,
me desperta.

Jovial,
a assustada & tal,
comigo,
logo flerta.


domingo, 21 de dezembro de 1997