terça-feira, 20 de março de 2001

insônias arrastam o fígado




no corpo da taça
todo o dia
e tudo que virou verdade
distorcidos em aplausos

(ou seria um vendedor
plantado no portão?)

NÃO
são sete horas da manhã, cara
e estou de cara
na farra d'outro vazio
às cadeiras desocupadas
douto
contemplando a dança das cortinas

meu vigésimo quarto outono
e nada de sono
nada de sonho
nada.

(- Querida noite,
muito obrigado
pelo açoite.)


domingo, 11 de março de 2001

paratis




distraiu-me, o farol
enquanto os bebês comiam
pelas beiras
do anzol

pagavam um sapo

e ainda nem tinham
escamas
no saco


quarta-feira, 21 de fevereiro de 2001

síndromãe




uma grande mulher 
que criou os filhos 
sozinha

que criou os filhos 

que aturou um marido bêbado 
e que engoliu, seco 
o medo 
sozinha

uma grande mulher 

que criou os filhos 
aturou o marido 
e que ainda lutava 
pelo pão da casa, 
mesmo que o pão fosse amanhecido, 
sozinha

que não fugiu com os filhos 

não ouviu os "conselhos" 
pois pensava que assim 
destruiria a própria família 
e era como pensava 
sozinha

uma grande mulher 

que viu os filhos crescerem 
o marido também 
e que viu suas flores secarem 
e a transformarem 
em quase ninguém 
ou apenas uma voz 
que falava 
sozinha

vieram os filhos dos filhos 

ganhou o nome de  
sentiu dor, sentiu dó 
pois nos novos rostos 
viu os traços de suas criancinhas 
: sabia que, para todos, queria só o bem
mas não quem era e quem não era quem

uma grande mulher 

sozinha


 

quarta-feira, 10 de janeiro de 2001

sexta-feira, 5 de janeiro de 2001

hollow




tem dia
que nem solidão
faz companhia


asperger




se não há clareza
nas coisas

& mesmo nos porões

ainda procuramos poréns
(tá, somos estranhos
mas uma riquezade cores e sentidos
povoa nossos corações)

& não estamos perdidos

apenas sozinhos
nas multidões


segunda-feira, 25 de dezembro de 2000

réquiem para o sol




se o céu de Luanda 
espelho fosse 
escarlate estaria 
escondendo, escaldante

os desenhos das nuvens 

na estradazul 
do passarinhalto 
bicando o algodão doidoce 
- blues

: o menino de nove 

agora é chefe de família
e, ontem, uma menina de sete 
viu seu pai não acordar

sendo assim, hoje 

o menino ganhou 
mais uma filha

longe, mas não 

distante um poeta, de outro quase 
mesmo lugar 
até capta
 a ferida do instante 
mas o vazio o rapta 
e, como nada tatua na página 
desiste e se vai, tristonho

viu que é de um mundo, nada menos

do tamanho da tal ferida 
e o quanto, sarcástica 
a tal ainda rima com a vida

despedaçando tantos pequenos 

corassonhos


quarta-feira, 13 de dezembro de 2000

sábado, 2 de dezembro de 2000

philosophychaos




alguns invernos 
para então merecer 
um certo verão 
(todavia, o frio prefiro)
 

alguns infernos 
para merecer um céu
(dependendo de qual for 
até me retiro)
 

só sei que 
seja na luz 
ou na escuridão 
se além daqui 
for comigo esta dor 
nada tem sentido
 

(o sol ia se pondo 
juntei minhas tralhas 
levantei da grama
e vi um pássaro negro
que mais parecia uma gralha 
no galho de um arbusto
 

dei meus passos
para ir embora
e o bicho veio 
em minha direção 
me abaixei e
  

caramba, que susto! 
e ainda senti, 
o ar deslocado, 
quase levando o meu boné

o pássaro foi para longe 
e eu fiquei ali 
parado até perder 
as horas
 

- enquanto sem fé 
o melhor mesmo 
é só pensar 
& repensar 
o agora - )