segunda-feira, 12 de novembro de 2001

sinuca




ao ontem que se soma
e à fênix do novo dia
eu rogo
:
não me deixem entrar na fria
de um diploma
de ociólogo


poemáscara número zero




que sejam ilusões tudo que penso
ao menos penso
ao menos sou mais
que a breve metáfora

não, não fujo
do que ainda devo 
& não devo descobrir
são as descobertas que se escondem
no verso das páginas
ou no avesso do óbvio

mas por que indago e simulo uma reflexão sujando o branco deste tapete?

as letras o pisam, afoitas


c

       a

             e

                   m


& a tinta vai deixando
as pegadas de um vôo sem asas
sem rumo ou princípio

que sejam ilusões
:
tudo é máscara
tudo é lixo

(ou tudo é lindo
pra quem só chora

sorrindo)


pré-renúncia do paralelepípedo rebelde




Dândis no Ganges do Largo,
não da Ordem, mas do trago,
despurificam-se, queda em queda,
parindo diamantes.

Outro vinho, outros passos, mais moedas.
E outras rimas vêm, com os poréns,
idem aos cãobaleantes reféns
de suas erudições latidas.

O que queremos, indaga alguém que nem fala,
não seria fibra para nossas vidas,
nem um espelho utópico à nossas caras

: banhar-se do sujo sereno em noite rara
seduz até a mais cínica ferida
a lapidar, sorrisos, numa lágrima cuspida.




sexta-feira, 9 de novembro de 2001

o funeral de um poema inacabado




todos

(jovens decrépitos
em sua hábil
plagiarte)

nós

(rompendo com o absurdo
lambendo os beiços
na porta dos fundos)

atados
(e alguém havia soprado
que o pesadelo pode ser
bem mais brando que o sonhado)


sexta-feira, 10 de agosto de 2001

cinema surdo




numa cavidade
da madrugada ranzinza
aura cinza

estanco a cidade do peito
sorrindo
- pois tenho direito

e fico em casa

na fogueira
sereno
& brasa
fazem amor de verdade
unindo prazeres
& vontades

e é nesse filme
que godard não fez
que a lucidez me volta
mostrando que
do que a saudade me fez
nada
& nada mais
importam

(um dia volto a te sonhar
só quero que entenda
que o tempo só é tempo
por ser apenas
um outro encontro

não mais que momento
num reles lugar)


 

quinta-feira, 9 de agosto de 2001

philosophycow (ou "a via láctea")

 


na época das vacas magras
uma delas ia para o brejo
mas errou de direita
e entrou num brechó

gostou da vitrine
olhou nos olhos do dono
um tal de Sérgio, um tanto espantado
e disse:

- Ô, meu? que cara é essa?
Nem tô de biquine...

o Sérgio se recompôs
e perguntou:
- No que posso lhe ajudar?

- Em nada!
e, erguendo o queixo
foi embora, a Vaca
sem nada, nem tocar

então, o tempo
ele mesmo, o tempo
veio e questionou
se ela seguiria seu destino
se devemos todos
continuar

e ela respondeu
de patas na cintura:

- Menino,
numa vida que seja, mesmo,
pura,
a estrada não é mais que uma jura
de que vamos
nos encontrar.