domingo, 3 de agosto de 2014

outoninverno




o músculo errante
pelas trevas andava
sem saber
nem ao certo
como era a face
que lá procurava

batia, forte
seguindo por versos
que pareciam ser
de Dante

e quando, enfim,
a sentiu por perto
a luz o assustou
o próximo passo lhe faltou
& foi tragado por um precipício

que o condenou
ao princício
de tudo

sentiu
que era como se já pagasse
pelos pecados futuros
e foi refazendo os caminhos
abandonando cada um
dos tantos & tantos
orgulhos

se arrastou por abril
maio, junho, que quase o levou
noite vai e dia cai
noite vai e dia cai
de repente, estava em julho

e ele se viu de novo

na própria vida
sem o estorvo da ferida
sem a sombra
que sempre o trai

só então
sonhar mereceu
e mereceu se encontrar
já em agosto
já conhecendo
cada linha do rosto dela

quase a fez chorar de rir
com uma de suas tantas
tontas
histórias velhas

logo, olhos nos olhos
ele viu além do além
do que há
era o fim das andanças
e, quando ela assentiu
pôde ler, ali mesmo
no sorriso

uma carta
da própria alma
mandando lembranças

do paraíso



quarta-feira, 30 de julho de 2014

cena x, tomada y




ela se trancava no quarto
e sonhava em ser
escritora
de livros infantis

quando me contou
deixou felizes
os pingos nos is

instante daqueles, raros
: quando tive certeza
de que ela também tinha
o ascendente
em aquário

nem vou me esforçar
nos versos seguintes

pois por menos que se rime
o livro sempre será, mesmo
bem melhor

que o filme







terça-feira, 29 de julho de 2014

quarta-feira, 30 de abril de 2014

curare




mas que dor do lado é essa
que até me deixa com pressa
de desaparecer?

que dor é essa
que nem pisca no eletro
e que nem analisando
meus pedaços de perto
os doutores conseguem ver?

é ruim até de escrever
pois o braço dói pra caramba
à cabeça na corda bamba...

tonto
& farto de codeína
& ibuprofenos
arrisquei respirar no sereno

lá fora estava bem frio
mas o corpo, fervendo, dizia:
- meu, tu tá morrendo...

então, um ventaço, num assovio
à lua de vigia
e só,
revirou as samambaias penduradas
e um gato branco, que apareceu do nada
que dó
quase morreu de susto
engoliu o miado, depois de um pulo
caiu de mal jeito
e saiu correndo de lado

ah, essa dor do lado
esse negócio
chamado peito...

(!)
se revela
o inimigo

então tiro do bolso uma navalha
(a usei para apontar os lápis)
ele gargalha
enquanto vejo de novo o gato (maluco,
com mis em miados à capela)

"tudo bem, aceito o veneno", digo,
e platão se cala

mas quase tropeço
no verso
e no bichano na minha perna

recupero a fala e solto
"beberei como se fosse suco
d'alguma uva nobre!", na verdade, berrei,
e, enfim, os vizinhos e suas luzes
foram acendendo

(seria pobre rimar com pobre, não irei,
ainda bem não precisar)

finalmente agora que sei
do que já sabia
do impossível, é claro
e que estou de novo morrendo

bem, depois que encontrar o dono do felino
(seria platão?)

eu voltarei para a caverna
voltarei para o meu eu invisível
e vou buscar nos meus sonhos de menino
algum raro sorriso pra me apegar

não, não dá!
apenas o dela
é o que há
é o que há
é o que há

mas que raio de dor é essa?
pois já acho mesmo que vou morrer
e ela não vai
passar



quinta-feira, 12 de setembro de 2013

cá, mim, ó




não se defina
pois sempre mudamos
&, muitas vezes,
não à esmo

e, sim,
para nunca perdermos
velhas rimas
& sempre alcançarmos
nós mesmos




sábado, 11 de agosto de 2012

dois mil e dose

 


o caos está tão
no lugar
& no lugar comum

tão perdido

que, se Ele voltar
vai ser para ressuscitar
quem já está
vivo




quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

numa curva da vida




descobri,
há muito

mas inda não sei
se sei
explicar
direito
:
a imperfeição
é o que nos faz
e desfaz

perfeitos.


 

quinta-feira, 2 de junho de 2011

cá, enter, nós



vulgo vulgar
vagante in errâncias
numa prosa
pró-rosas
em ramalhenters
& escs
barras & arrobas
emoticonspirando
...

não!

não sirvo pra isso:

ela, na redoma
de seu e-cárcere privado
e-eu,
a soma de todos os futuros
dos futuros
do passado

(o poema
não está mais respondendo
e será
fechado.)




terça-feira, 3 de maio de 2011

confissura

 


quando me deixou
e deixou, de verdade
às flores & dores
de la noche

& à vontade
que me trouxe da loucura
para manchar a brancura
com o sangue negro
d'outro poema
assassinado

: ela me deu um soulnífero
e o pesadelo acordou
do meu lado



sábado, 6 de novembro de 2010

meu reino por um porquê!




ela queria

ah,
mas como ela queria

que eu a traduzisse em versos
que eu a transformasse em algo
como a luz do dia

que espalhasse suas pétalas
pelo branco das folhas
que falasse da lua
e, é claro, do céu azul
das estrelas,
do mar
e mais um tanto de, desculpe
blablablablá



porém,

jamais quis saber
qual, na verdade
era
o seu lugar
quem ou quê
realmente
poderia me, ou nos,
inspirar

e
sem o ins
só me fez

pirar