quarta-feira, 30 de maio de 2001
niente
Quem dera eu fosse, ou quase, um poeta,
dos que constroem altivos sonetos,
e não um verso em estrofe tão pateta,
que termina querendo falar dos ventos.
Ventos que mudam, e mudam, a direção
dos sonhos, das cores, dos lugares,
mas mal fazem cócegas ao coração,
afogado no mais profundo dos meus mares.
Quem me dera outras rimas, menos manjadas,
versar sobre os tombos, escrever mais piadas...
Mas a noite acabou, acabou de novo, e preciso dormir.
(E se eu escrevesse uma obra prima, aclamada,
a trocaria pelos ombros de qualquer outra estrada
que me desviasse dos futuros que já perdi.)
terça-feira, 22 de maio de 2001
quinta-feira, 10 de maio de 2001
catedral
lá
uns, iam para representar
outros, para se perder
alguns, para se encontrar
uns tantos
queriam ver como era por dentro
tocar os santos, se orgulhar,
ou, mesmo, só para falar mal
dos ornamentos
a criançada
sonhava tocar o sino
chegar perto do órgão
tentar tirar dele
um som bem
beeem sinistro
(parece que um menino
que depois entrou
na belas artes
conseguiu
& conseguiu também
um safanão do pai
ao sermão de um arcebispo)
havia um bebum
que, se, bobear
na mesma hora de sempre
lá na calçada, ainda se deita
(senão, cai)
também, como não lembrar
da velhinha, que contava de assombros
e que foi de tal seita
enquanto alimentava "seus" pombos
antes de ir para o chá
e não esqueçamos de nós
quase toda noite
bebendo vinho
lá na frente
nem dos que pareciam
parar por ali
só para ficar
olhando a gente
(e como eu ri...)
qualé a dessa moçada
toda de preto?
não sabem que viver de luto é errado?
não têm respeito
pela religião?
nada disso, nada não
nem éramos "servos do cão"
pois aquele lugar
também nos era sagrado
à nossa verdade
que escrevia
na amizade
a maior & melhor
oração
aquelas noites
terem acabado
é só o que vejo como um pecado
dos sem perdão
sexta-feira, 20 de abril de 2001
as veias abertas de uma esquina lá da vila
segundo terceiros
o caminho
é por ali, galera sempre em frente
e eu disse
peraí, gente!
mas não me escutaram
e já era:
abandonaram seus quartos e,
só, sós, lá nos quintos
pararam
rua xv
os rostos passam
: cada um, um segundo
de minha vida
mundos que perco
no aperto dos passos
no grito das vitrines
até que então
ela escorrega
:
olhares se cruzam,
mas não os caminhos
aqui já é regra
trocar o incerto
pelo certo
sozinho
quarta-feira, 18 de abril de 2001
amorfanato
ninguém perdoa
meus sonhos
mas perdoam
sangue
dólares
mentira
!
quadrado mundo
que, moribundo
gira
quarta-feira, 4 de abril de 2001
sexta-feira, 23 de março de 2001
ô, psit!
quero falar
um tempo que,
de tão difícil
do próprio tempo
vivíamos à espera
tempo de quando
na falta de respeito
realmente nos dávamos mal
tempo de quando a coca-cola
(assim como o direito)
era um artigo de luxo
: só no Natal
quando havia fila para tudo
para o inamps
para a carne
para o leite
para o gás
para o mundo
o mundo, até ele mesmo
corria o risco
de também ficar para trás, às dúvidas
das crianças, como a que eu era
de poucos sonhos
de cabeças quentes
com a tal fria guerra
e ninguém sabia
para aonde se,
e se se ia
enfim,
o domingo chegava
e tudo tudo parava
pois, aos sorrisos
íamos todos
para a frente
de alguma tevê
lembro bem das gargalhadas
de todas as idades
depois de um certo sujeito
soltar seu bordão
- Nojento!
ele era um dos tantos
que abriam as cortinas
e os nossos corações
quando começava
o sério trabalho
daqueles mestres palhaços
que se chamavam
Os Trapalhões
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